Eu tenho certeza que você já olhou ao seu redor e se perguntou se voltamos aos anos 2000. Calças de cintura baixa, laços para lá e para cá, roupas metalizadas, cetim, salto plataforma, babados e vestidos balonê são só o começo. O que me intriga mesmo é a volta massiva de pensamentos e comportamentos que passamos os últimos 10 anos tentando desconstruir.
A obsessão pelo corpo magérrimo é algo que, francamente, eu preferiria ter deixado como tendência passada. Como alguém que estava em formação nos anos 2000, cresci lendo revistas que davam dicas de dietas e apontavam o ganho de peso de celebridades. Obviamente isso teve um forte impacto na minha relação com a minha aparência. Entrei na pré-adolescência com apenas um objetivo: ser magra.
Sempre fui fã da revista Capricho e me lembro bem de quando convenci minha mãe a pagar a assinatura fazendo uma apresentação em cartolina. Mal sabia ela todos os danos que aquilo me causaria. Obviamente a culpa não é apenas da revista, afinal eu também acessava o falecido Tumblr assiduamente e consumia conteúdos horrendos que incitavam desordens alimentares. Bom, e minha mãe? Ela sempre se orgulhou em dizer como teve facilidade em emagrecer durante a vida toda. Não tive muita ajuda.
Por volta dos 14 anos eu desenvolvi uma quase anorexia absurda e ninguém percebeu. Eu contava as calorias de absolutamente todos os alimentos que ingeria. Não havia prazer algum ao me alimentar, porque eu só via números e eles deviam somar sempre abaixo de 1000 ao final do dia. Passei alguns anos assim. Boa parte da adolescência. E isso não me trouxe felicidade nenhuma. Consigo contar nos dedos quantas vezes nessa fase eu me senti satisfeita com meu corpo, apesar de todo o esforço e de todos os quilos perdidos (foram muitos). É definitivamente uma batalha sem vencedores.
Não faz tanto tempo assim que aprendi a ter uma nova relação com a comida e com o espelho. Assim como não faz tanto tempo que passamos pela onda de autoaceitação, de amor próprio e de cuidado com o próximo. Entretanto parece que a maré baixou revelando que regredimos total e coletivamente. Ou que nunca avançamos de fato. De repente o que era a “geração saúde” foi se tornando uma busca implacável pelo “corpo ideal” novamente trazendo o Ozempic como o ópio dos anos 20. E ninguém parece estar ciente disso. Eu me sinto vivendo uma distopia em que sou uma das poucas pessoas lúcidas capazes de enxergar tudo que está acontecendo.
Algumas semanas atrás viajei nas minhas tão sonhadas férias. Fui para o Caribe e me esbaldei de biquíni. Sei que meu corpo, apesar de magro por eu me alimentar razoavelmente bem, não está totalmente em forma porque sou sedentária, mas faço o impossível para me sentir bem nele. Honestamente isso não era minha preocupação durante minha viagem, porque eu não poderia trocá-lo ou mascará-lo com maquiagem, então por que me descabelar? Meu objetivo era descansar e aproveitar os lugares incríveis que estava conhecendo. Além do mais, eu tenho pavor de voltar a ser como fui anos atrás.
Imagine qual foi a minha surpresa ao me deparar com todas as minhas companheiras de viagem se comparando o tempo todo. Inclusive comigo. Ouvi que seriam felizes se tivessem corpos x ou que usariam tal roupa se tivessem corpo y. Que eu não tinha que me preocupar com nada, afinal eu sou magra. Bom, é exatamente assim que a nossa mente se distorce. Diariamente vejo ao meu redor que a busca pelo corpo “saudável”, apesar de trazer o benefício da prática de exercícios, traz também uma eterna insatisfação e incapacidade de se reconhecer como bela, nem mesmo por um instante. Há sempre um porém e um futuro em que o peso estará de acordo com a ocasião.
Preciso deixar claro aqui que meu objetivo passa longe de apontar qualquer insegurança que eu ou outras mulheres venhamos a ter. Minha reflexão é sobre a aparência ter voltado a ser o centro de tudo e da insatisfação vir de mulheres lindas que estão se cegando pelo tsunami da adoração da magreza que voltou desmantelando tudo.
Infelizmente eu sei que esse é só o começo e que esse é um combo que inclui inúmeros outros retrocessos. Vários deles que começaram como piada e agora fazem morada. Viraram consenso. Tiramos a camisa do feminismo com a falsa sensação de que não precisamos mais dele. Estão nos fazendo acreditar que já conquistamos a liberdade e que estamos nos prendendo a antigas amarras só porque queremos, não porque somos impostas. A moda é ser magra, dona de casa e esposa troféu. Tudo pelo hype e alguns likes no Instagram.
Sei que é impossível sair ilesa, afinal ainda que em contextos diferentes, estamos todos na mesma era, mas, do fundo do meu coração, espero que consigamos fazer uma contenção de danos diante de todas as “tendências” que vêm por aí. Que as vitrines do Instagram não contaminem nossa relação com nossos corpos e com a nossa forma de aproveitar os prazeres da vida, que vão muito além do que publicamos.
Não há nada mais prazeroso do que lambuzar comendo um bolo de fubá com queijo e goiabada na casa da minha vó sem me preocupar por um segundo sequer no quanto isso vai afetar o meu ganho calórico, e eu não quero nunca mais me esquecer disso.