Despedida de solteira

Despedidas de solteiro sempre ocuparam um lugar de caos e curiosidade no meu imaginário. Hollywood me fez acreditar que elas envolviam loucuras irreversíveis, como em Se beber não case, e eram um último respiro antes do matrimônio. Como se já não houvesse um compromisso entre o casal antes ou o casamento fosse um tipo de prisão anunciada (para o homem, na maioria das vezes). Eu me perguntava, entretanto, como seria participar de uma.

Até que aos 25 anos me aconteceu: fui convidada para a despedida de uma amiga que vai se casar na próxima semana. Além da inevitável sensação de que estou ficando velha, também me empolguei para ver de perto as celebrações desse ritual tão importante. A festa, além de ter me proporcionado risos daqueles que doem a barriga, também despertou sentimentos desconhecidos, latentes e até reflexivos. 

A fase dos 20 e poucos é engraçada. Meus amigos de infância, da faculdade, minhas amigas do intercâmbio ainda estão aproveitando a juventude, vivendo o que há pra viver. Enquanto isso, boa parte das pessoas que estudaram comigo no ensino fundamental e médio já se casaram e têm filhos. Sou uma das poucas exceções que ainda preza por conhecer o mundo antes de me preocupar em assentar e constituir uma família. Pelo menos era assim que eu pensava.

Enquanto celebrávamos nossa querida noivinha, foi inevitável não nos perguntarmos “será que a minha vez vai chegar?”. Essa, que nunca foi uma pauta importante na minha pilha de preocupações, parece ter se aflorado e começado a plantar sementes nos últimos meses. Será que esse momento chega para todos ou é apenas pela convivência em ambientes em que o casamento parece ser um dos pilares do sucesso? Seria pela visão dele como caminho mais fácil para se criar raízes neste país? Ainda não cheguei em uma conclusão.

Imagino que seja uma combinação de tudo. Quando se abandona a carreira e todas as certezas para viver em outro país, tudo parece promissor e um fracasso iminente ao mesmo tempo. Dá vontade de se ter e de ser tudo. Quero voltar para o meu país. Quero morar na Europa. Quero viver viajando o mundo. Quero que uma empresa pague meu visto de trabalho. Quero casar e ter dois filhos. Uau. Essa é nova.

Outro dia, fui em um bar com um casal de amigos brasileiros que vieram visitar San Francisco e encontraram comigo e umas amigas depois de meses. Ouvi de um dele “vocês estão falando muito de casamento, vocês não eram assim”. Plim. Estamos mesmo. Parece até que entramos para alguma trend da internet. 

Já me peguei até mesmo dizendo que só me envolvo em um relacionamento sério a partir de agora se for para durar, para casar, afinal já não estou mais na idade de brincar de casinha. Logo eu, que sempre vivi o presente e me permiti ser aberta ao que tiver que ser. Que sempre foi mestre em viver o “que seja bom enquanto dure”.

Parece que cada vez mais nossa data limite para que tenha se conquistado tudo diminui. A internet de hoje encara os 30 como se fossem 50. Sabe aquela volta dos 2000? Pois é. Depois de assistir o novo filme “A ideia de você” com a Anne Hathaway interpretando um papel em que é velha demais para o amor, eu tive certeza de que na verdade estou no caminho certo. 

Talvez eu esteja mesmo me permitindo ser influenciada pelo meu entorno fantasiando uma vida que nunca sonhei. Talvez o tempo esteja me pegando de um jeito em que todas as possibilidades me parecem passíveis de serem analisadas. Ou talvez eu só esteja solteira por muito tempo e comecei a querer encontrar alguém para me acompanhar em minhas aventuras. Aquela história de que quem anda junto vai mais longe.

O que me conforta em meio a tudo isso é saber que não estou sozinha. Não há nada mais divertido do que planejar com as amigas uma realidade paralela como a gente fazia quando era criança pensando nos nomes dos nossos futuros filhos e logo depois rir de nós mesmas diante do status “solteira é passado, minha situação ainda não tem nome” que temos. 

E apesar de todos os meus devaneios, eu sei que estou vivendo uma das, se não a  melhor fase da minha vida. Por saber disso, não me permito ser a anfitriã de uma despedida de solteira se ela não servir mais do que mera formalidade. Eu me recuso a me despedir de tudo que estou vivendo e não é só porque sou inimiga do fim. Se não for para somar e me trazer mais felicidade, continuo me divertindo enquanto me despeço da solteirice das minhas amigas curtindo a minha.

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