Terminar com ficante, ter um guarda-roupas cheio e não ter roupa pra sair, se sentir horrível porque apareceu uma espinha enorme no meio da testa, marcar um date e levar um bolo, sofrer por gente que não vale um minuto do seu tempo, mandar mensagem bêbada… Nenhuma dessas experiências é individual. São só a ponta do iceberg que é ser mulher e, mais ainda, ser solteira. O que deixa tudo mais leve? Compartilhar tudo isso com outras mulheres.
Assim como Dolly Alderton em Tudo que sei sobre o amor, eu também aprendi o que é o amor com mulheres. Cresci com a minha mãe, com a mãe dela, com a minha irmã, minhas primas e minhas amigas sendo aliadas. E apesar do apreço que tive por ter tido essa sorte, eu só parei para observar essa dinâmica ainda mais de perto nos últimos meses.
Depois de passar por uma decepção amorosa intensa seis meses atrás, morando em outro país, eu fui salva pelo companheirismo e pelo colo de amigas que não me deixaram esquecer do meu valor. Foram elas que me fizeram rir até a barriga doer e me lembraram que meu mundo já existia antes do dito cujo que partiu meu coração. Foram elas que ouviram minhas lamúrias incontáveis vezes e me ajudaram a enxergar a luz no fim do túnel. Muitas vezes no fim de um copo de vinho.
Desde então eu dou ainda mais valor do que jamais dei às minhas amizades femininas. Eu priorizo nossos encontros e me produzo para nossos dias juntas, porque passei a enxergar como um evento tão importante quanto seria se fosse um encontro romântico. Procuro brechas na rotina para tomar café com uma amiga, porque isso me recarrega e me dá ânimo para terminar a minha semana.
Somos todas imigrantes no meu grupo de amizades mais próximas e isso nos une ainda mais. Somos a família umas das outras enquanto estamos a tantos mil quilômetros de casa. É impossível não ver beleza em uma aliança de pessoas tão distintas que se uniram por forças do acaso.
Costumo dizer que estamos ficando autossuficientes e em breve estaremos prontas para iniciar nossa própria comunidade. Se uma não tem e a outra tem, nós todas temos. Se alguém não sabe, nós ensinamos. Se alguém não se sente bem, nos unimos com palavras de conforto e gestos de carinho para que as coisas melhorem. E assim seguimos dia após dia fazendo jus ao significado de amizade.
É claro que nem tudo é um mar de rosas e a convivência faz com que tenhamos conflitos. Faz parte do viver em sociedade. Também não somos uma comunidade serena que vive apenas de ajudar umas às outras. Nós vamos em festas, bebemos, mandamos mensagens bêbadas, vamos a encontros com desconhecidos que trocamos cinco mensagens em aplicativos de namoro confiando apenas na localização compartilhada, ficamos frustradas quando levamos ghosting e vivemos a vida como se o mundo fosse acabar. Ele nunca acaba, as consequências sempre chegam e nós continuamos vivíssimas lidando com cada uma delas.
Sorte a nossa que aprendemos a rir de nós mesmas. O riso é mesmo o combustível da alma. Por isso aqui, além dos meus devaneios e reflexões, você vai poder ler as barbaridades que cometemos em prol de um pouquinho de diversão, nossos dramas e dilemas e as poucas e boas que passamos nos aventurando enquanto descobrimos a América.